GT virtual 3 Entre mundos mais-que-humanos

Título: "Entre mundos mais-que-humanos: ontologia, ciência e insurgência na América Latina"

Horario

Grupo de Trabajo 3 virtual Bloque A:

Día: Miércoles- Quarta-feira 04/11/2026. Hora: 13:30-16:00 hrs. (Sur Brasil)

Grupo de Trabajo 3 virtual Bloque B:

Día: Jueves-Quinta-feira 05/11/2026. Hora: 9:00-13:00 hrs. (Sur Brasil)

Coordinación / Coordenação

Doutoranda Irene Adyane Marciano da Silva (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)

Dr. Felipe Soto Martínez (Universidad de los Lagos, Chile)

Moderación / Moderação

Doutorando Tui Xavier Isnard (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)

Resumen / Resumo

A chamada virada ontológica na antropologia marca um deslocamento decisivo em relação às abordagens representacionistas, ao propor que diferentes coletivos não apenas interpretam o mundo de maneiras diversas, mas habitam mundos ontologicamente distintos. Nesse horizonte, as chamadas virada vegetal e animal emergem como desdobramentos críticos que reposicionam espécies para além de sua condição de objetos passivos, reconhecendo-as como agentes dotados de formas próprias de existência, sensibilidade e relacionalidade. Trata-se de um movimento que desafia o antropocentrismo e convoca a antropologia a reconsiderar categorias fundamentais como vida, pessoa e agência, ampliando-as para incluir existências mais-que-humanas. Esse campo de debates encontra ressonância direta com a antropologia da ciência, sobretudo no que diz respeito à crítica da universalidade do conhecimento científico moderno. Ao evidenciar que a ciência é também uma prática situada, atravessada por dispositivos técnicos, regimes de verdade e relações de poder, a antropologia da ciência abre espaço para o reconhecimento de múltiplas formas de conhecimento. A virada ontológica intensifica essa crítica ao colocar em evidência ontologias nas quais espécies não são recursos, mas sujeitos de relações complexas, frequentemente inscritas em cosmologias indígenas, afro-diaspóricas e camponesas. Nesses contextos, as plantas e animais aparecem como parentes, entidades espirituais, mediadoras entre mundos e participantes ativos na constituição do social. Na América Latina, essas discussões adquirem uma densidade particular, uma vez que estão intrinsecamente ligadas à história da colonialidade, da expropriação territorial e da violência epistemológica. Os territórios não se apresentam apenas como campos empíricos, mas como espaços de produção teórica fundamental, no qual saberes locais e práticas de resistência reconfiguram os termos do debate antropológico. A partir disso, buscamos neste GT etnografias que evidenciam modos de existência nos quais a separação entre natureza e cultura se reelaboram, dando lugar a formas relacionais de habitar o mundo compreendendo-as também como um campo político, implicado em lutas por território, autonomia e reconhecimento epistemológico. É nesse ponto que a articulação com o feminismo se torna central. Um feminismo comprometido com a crítica às hierarquias ontológicas e epistemológicas oferece ferramentas fundamentais para pensar outras concepções de mundo, ao desafiar tanto o androcentrismo quanto o antropocentrismo que estruturam a modernidade ocidental. Inspirado por contribuições do feminismo negro, do ecofeminismo e das epistemologias decoloniaisl, este GT busca discutir como um campo de relação que exige uma ética do cuidado, da interdependência e da responsabilidade deslocar o foco da dominação para a coexistência, reconhecendo a vulnerabilidade compartilhada entre diferentes formas de vida. Desse modo, busca-se investigar como a articulação entre virada ontológica, antropologia da ciência e pensamento feminista pode contribuir para a formulação de outras concepções de mundo mais-que-humanos, capazes de sustentar formas mais plurais, justas e habitáveis de existência. Ao valorizar saberes situados e práticas relacionais, essa abordagem busca não apenas descrever mundos, mas participar da sua transformação, afirmando a possibilidade de uma ecologia de conhecimentos fundada na diferença, na opacidade e na coexistencia.

Seção 1 - Materialidades insurgentes: agência, tecnociência e disputas ontológicas

Ponencia / Apresentação. Título: "Tensionando a domesticação: tecnociência, agência vegetal e cosmopolítica no Antropoceno"

AUTORÍA: Mestranda Sarina Vicente de Senne Oliveira (Universidade Estadual de Campinas, SP – Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O milho (Zea mays) ocupa um lugar singular na história das relações entre humanos e plantas: é frequentemente evocado como o exemplo mais bem acabado de domesticação vegetal, aquele ente cuja morfologia foi tão radicalmente transformada pelo controle reprodutivo que sua sobrevivência fora do manejo humano tornou-se impensável. É precisamente essa evocação que torna os laboratórios de melhoramento genético de milho em campos etnográficos privilegiados para interrogar na prática os limites da noção de domesticação e, com ela, os limites do próprio projeto tecnocientífico moderno.

Esta comunicação apresenta o horizonte de uma pesquisa etnográfica em andamento junto a dois laboratórios de melhoramento genético de milho na cidade de Campinas-SP, voltados à produção de espécimes resistentes a estresses abióticos decorrentes das mudanças climáticas. A partir de um engajamento com as proposições da virada ontológica e dos novos materialismos, e matizada a partir dos estudos multiespécies, a pesquisa toma o milho como agente central da narrativa etnográfica, deslocando-o da posição de objeto passivo de intervenção para a de ator co-constitutivo de suas relações para com humanos. Nesse sentido, os laboratórios de melhoramento genético aparecem não como espaços de dominação unilateral, mas como arenas de negociação multiespécie, onde a noção hegemônica de domesticação, fundada no par dominação/passividade, é continuamente tensionada.

Assim proponho que a domesticação seja pensada como uma relação assimétrica, situada e inconclusiva. Esse deslocamento conceitual não apenas complexifica o debate antropológico em torno da noção de domesticação e do reconhecimento da agência não-humana, mas abre espaço para reconhecer as alianças cosmopolíticas escamoteadas na sustentação da estrutura moderna.

Ponencia / Apresentação. Título: "Práticas xamânicas e neuropsicologia do senso de agência: interlocuções entre neurociência contemporânea e saberes ancestrais"

AUTORÍA: Dr. Marcos de Jesus Oliveira (Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Foz do Iguaçu-PR, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Ainda hoje a neuropsicologia tende a fixar o senso de agência no eu individual ou, mais especificamente, em correlatos neurais, tais como os córtices pré-motor, pré-frontal e parietal inferior, o cerebelo e a ínsula. Por outro lado, as práticas xamânicas, com seus rituais de transe, cantos, danças, dietas e uso de plantas medicinais, revelam uma agência não fixa, expandida, distribuída ou suspensa, desafiando o binarismo eu/não-eu dos enfoques ocidentais e iluminando sua dimensão plástica, contextual e multifacetada. Este trabalho revisita os modelos neuropsicológicos, entre os quais, o modelo do comparador ou de processamento de sinais, que postula uma correspondência sine qua non entre uma cópia eferente do comportamento motor gerada pelo cérebro como forma de predição e a comparação desta com a informação sensorial real para que o cérebro atribua a ação a si mesmo. O objetivo é de, num diálogo interdisciplinar entre neuropsicologia, antropologia e saberes ancestrais, problematizar a tendência da ciência ocidental à redução da agência a um mero substrato neurobiológico e refletir sobre as implicações teórico-clínicas de considerá-la de um ponto de vista de uma ontologia não-representacionalista e como uma qualidade emergente de acoplamentos organismo‑ambiente em mundos simbólicos e relacionais mediados por práticas rituais, narrativas e cosmologias, como no xamanismo, sobretudo, o ameríndio. Parte-se, para isso, do pressuposto segundo o qual a agência não constitui uma propriedade intrínseca do eu, mas emerge das relações ecológicas de interdependência entre eu e não-eu, envolvendo mundos humanos, não humanos e mais-que-humanos, em contextos, mundos e condições específicas.

Seção 2 - Epistemologias do incontrolável: ontologia, cuidado e resistência

Ponencia / Apresentação. Título: "O êxtase dionisíaco que escapa a penteu: em direção a uma epistemologia do incontrolável na ciência moderna"

AUTORÍA: Mestranda Larissa Leonardi (Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR-Campus Pato Branco, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: A partir da tragédia Bacantes, de Eurípides, este artigo mobiliza o mito de Dionísio como metáfora para tensionar a relação entre a racionalidade moderna e formas de saber que escapam ao controle metodológico. Tal como Penteu, que busca capturar e desacreditar o deus, a ciência moderna construiu sua autoridade excluindo o êxtase, o sensível e o incontrolável, relegando-os às margens como superstição, loucura ou não-saber. Argumenta-se que essa exclusão limita a imaginação epistemológica e reforça o monopólio do saber, convertendo a ciência em instância de fechamento diante da pluralidade de experiências e perspectivas. Defende-se, por outro lado, o êxtase como epistemologia do incontrolável, capaz de desafiar as fronteiras impostas pelo pensamento moderno e reabrir espaço para práticas de conhecimento mais abertas, relacionais e sensíveis. Cada seção é introduzida por epígrafes da tragédia, articulando narrativa mítica e crítica teórica na busca por reintegrar o incontrolável ao horizonte contemporâneo do saber.

Ponencia / Apresentação. Título: "Desobediências Epistêmicas na Terra: inflexões ontológicas e a composição de mundos plurais em Tsing e de la Cadena"​

AUTORÍA: Mestre Sandra Cilce de Aquino (Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP / Ministério Público Federal-MPF, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O trabalho analisa as inflexões epistemológicas, éticas e políticas que emergem da articulação entre a virada ontológica, a antropologia da ciência e a crítica pós-colonial/decolonial na América Latina. A partir do diálogo cruzado entre as obras «Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno”, de Anna Lowenhaupt Tsing, e “Seres-terra: cosmopolíticas em mundos andinos”, de Marisol de la Cadena, busca-se investigar como as existências mais-que-humanas desafiam o projeto moderno-capitalista, o androcentrismo e o antropocentrismo. Através de conceitos como «arte da inclusão sem totalização», «não escalabilidade» e «contaminação» em Tsing, confrontados com as noções de «seres-terra», «tradução incompleta» e «co-laboração ontológica» em Cadena, o artigo propõe uma reflexão sobre as disputas territoriais e de realidade (conflitos ontológicos) enfrentadas pelas Antropologias do Sul. Argumenta-se que habitar a incerteza e acolher a opacidade teórica e etnográfica constituem gestos radicais de uma ética do cuidado e da interdependência, fundamentais para a composição de mundos plurais e politicamente insurgentes em tempos de colapso ecológico e social.

Ponencia / Apresentação. Título: "Ação de extensão. Desdomar desmontando o patriarcado a cavalo"​

AUTORÍA: Dra. Marília Floôr Kosby (Universidade Federal do Pampa, Brasil), Dra.(c) Liamara Denise Ubessi (UFPel, Brasil), Caroline Soares (UFPel, Brasil), Cristiana Costa de Souza (Universidade Federal do Pampa, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: A ação de extensão Desdomar desmontando o patriarcado a cavalo compõe o projeto de extensão Desdomar: poéticas de liberdade com a manada equina da Unipampa. A iniciativa é uma parceria entre a Universidade Federal do Pampa – Campus Uruguaiana e a 2ª Vara Criminal de Uruguaiana, consistindo em atividade reflexiva e educativa voltada a homens em cumprimento de medida judicial decorrente de violência doméstica, nos termos da Lei Maria da Penha. Depois dos altos índices de feminicídios de 2015, o ano de 2024 ficou marcado pelos alarmantes índices de 1.450 (Relatório Raseam/Ministério das Mulheres) a 1.492 (Anuário de Segurança Pública) casos no Brasil. Desde então, as estatísticas brasileiras desse crime só aumentaram. O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com maior número de feminicídios de mulheres com medida protetiva de urgência, registrados em 2025. A ação tem base metodológica antropológica e fundamentação teórico-etnográfica, contando com equipe multiespécies interdisciplinar, composta por humanos/as e equinos/as. Emergentes do grave e urgente contexto de combate e prevenção à violência contra a mulher, além de situadas em uma sociedade com firmes bases agropastoris e patriarcais, as atividades vivenciadas na ação fomentam reflexões sobre masculinidades, tradição, autoridade, subjugação, vínculo afetivo e expressão emocional, favorecendo a revisão crítica e íntima de práticas que historicamente sustentam modelos misóginos. Especificamente, com relação aos excessos de uma masculinidade hegemônica, observamos comportamentos de controle, manipulação e busca por obediência. Nesse sentido, o eixo central das ações realizadas junto com a manada equina da Unipampa é um desacoplamento da montaria (desmontando, portanto) e das relações de “serventia” ou dominação (desdomando, portanto), dando abertura para um convívio em que os limites, intenções, desejos do/a outro/a e de si mesmo/a estão sendo constantemente aprendidos.

Sessão 3 - Habitar mundos em transformação: ecologias relacionais e conhecimentos situados

Ponencia / Apresentação. Título: "Entre roçados e rios: uma etnografia do conhecimento ecológico tradicional de mulheres da Reserva Extrativista do Rio Iriri"

AUTORÍA: Mestranda Letícia de Godoy Torso (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O estudo investiga o conhecimento ecológico tradicional de mulheres ribeirinhas residentes em comunidades da Reserva Extrativista do Rio Iriri, na região da Terra do Meio (PA), buscando compreender como saberes, práticas e formas de habitar o território são produzidos e transmitidos no contexto das atividades agrícolas, especialmente nos roçados.

Partindo de uma perspectiva antropológica interessada nas relações entre humanos e ambiente, a pesquisa examina os modos pelos quais o conhecimento sobre plantas cultivadas, ciclos ecológicos, manejo da paisagem e processos de transformação da floresta emerge da experiência cotidiana das mulheres e de suas interações com diferentes seres, ambientes e temporalidades. Os roçados são compreendidos não apenas como espaços produtivos, mas como contextos privilegiados de aprendizagem, circulação de conhecimentos, construção de vínculos de parentesco, cuidado e reprodução dos modos de vida locais.

A pesquisa adota metodologia etnográfica, combinando observação participante, entrevistas abertas e acompanhamento das atividades cotidianas das interlocutoras. Ao privilegiar as perspectivas das mulheres, busca contribuir para os debates antropológicos sobre conhecimento ecológico tradicional, gênero, territorialidade, sociobiodiversidade e relações multiespécies na Amazônia, evidenciando o papel central das práticas femininas na constituição e manutenção dos sistemas socioecológicos amazônicos.

Ponencia / Apresentação. Título: "Percepções Kalapalo sobre as mudanças climáticas e seus efeitos sobre relações interespecíficas"

AUTORÍA: Mestranda Susi Leme de Moura (Universidade Estadual de Campinas-Unicamp, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Os Kalapalo, etnia pertencente a família linguística karib, do Território Indígena do Xingu – TIX, no estado do Mato Grosso – Brasil, possuem uma estreita relação com o ambiente em que vivem. O presente trabalho propõe apresentar a relação dos Kalapalo com os elementos outros-que-humanos, ditos: “recursos ambientais”, com especial interesse pela forma com que as mudanças climáticas podem estar interferindo nessas relações. A pesquisa apresentada adota uma perspectiva multiespecífica, interessada em descrever os modos pelos quais humanos e outros-que-humanos produzem relações em um contexto no qual o conjunto dos agentes é impacto por mudanças ambientais em curso. Concretamente, pretende-se: a) descrever as percepções dos Kalapalo sobre mudanças no clima, em especial os desajustes percebidos em relação a seus marcadores de tempo tradicionais; b) identificar e mapear elementos/espécies de interesse dos Kalapalo, investigando sua relativa abundância ou escassez e como ela é associada às mudanças ambientais; e c) investigar os impactos práticos das mudanças climáticas sobre suas relações com outros seres, considerando as formas de mitigação de impactos que os Kalapalo vêm buscando. Trazendo para o primeiro plano percepções e manejos locais, associadas a um complexo conhecimento ecológico tradicional, essa pesquisa pretende contribuir com os debates acerca de povos indígenas e as mudanças climáticas através de uma perspectiva transdisciplinar conectando as áreas de estudos da Antropologia e da Biologia.