Título: "Entre mundos mais-que-humanos: ontologia, ciência e insurgência na América Latina"
Coordinación / Coordenação
Doutoranda Irene Adyane Marciano da Silva (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)
Dr. Felipe Soto Martínez (Universidad de los Lagos, Chile)
Moderación / Moderação
Doutorando Tui Xavier Isnard (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)
Resumen / Resumo
A chamada virada ontológica na antropologia marca um deslocamento decisivo em relação às abordagens representacionistas, ao propor que diferentes coletivos não apenas interpretam o mundo de maneiras diversas, mas habitam mundos ontologicamente distintos. Nesse horizonte, as chamadas virada vegetal e animal emergem como desdobramentos críticos que reposicionam espécies para além de sua condição de objetos passivos, reconhecendo-as como agentes dotados de formas próprias de existência, sensibilidade e relacionalidade. Trata-se de um movimento que desafia o antropocentrismo e convoca a antropologia a reconsiderar categorias fundamentais como vida, pessoa e agência, ampliando-as para incluir existências mais-que-humanas. Esse campo de debates encontra ressonância direta com a antropologia da ciência, sobretudo no que diz respeito à crítica da universalidade do conhecimento científico moderno. Ao evidenciar que a ciência é também uma prática situada, atravessada por dispositivos técnicos, regimes de verdade e relações de poder, a antropologia da ciência abre espaço para o reconhecimento de múltiplas formas de conhecimento. A virada ontológica intensifica essa crítica ao colocar em evidência ontologias nas quais espécies não são recursos, mas sujeitos de relações complexas, frequentemente inscritas em cosmologias indígenas, afro-diaspóricas e camponesas. Nesses contextos, as plantas e animais aparecem como parentes, entidades espirituais, mediadoras entre mundos e participantes ativos na constituição do social. Na América Latina, essas discussões adquirem uma densidade particular, uma vez que estão intrinsecamente ligadas à história da colonialidade, da expropriação territorial e da violência epistemológica. Os territórios não se apresentam apenas como campos empíricos, mas como espaços de produção teórica fundamental, no qual saberes locais e práticas de resistência reconfiguram os termos do debate antropológico. A partir disso, buscamos neste GT etnografias que evidenciam modos de existência nos quais a separação entre natureza e cultura se reelaboram, dando lugar a formas relacionais de habitar o mundo compreendendo-as também como um campo político, implicado em lutas por território, autonomia e reconhecimento epistemológico. É nesse ponto que a articulação com o feminismo se torna central. Um feminismo comprometido com a crítica às hierarquias ontológicas e epistemológicas oferece ferramentas fundamentais para pensar outras concepções de mundo, ao desafiar tanto o androcentrismo quanto o antropocentrismo que estruturam a modernidade ocidental. Inspirado por contribuições do feminismo negro, do ecofeminismo e das epistemologias decoloniaisl, este GT busca discutir como um campo de relação que exige uma ética do cuidado, da interdependência e da responsabilidade deslocar o foco da dominação para a coexistência, reconhecendo a vulnerabilidade compartilhada entre diferentes formas de vida. Desse modo, busca-se investigar como a articulação entre virada ontológica, antropologia da ciência e pensamento feminista pode contribuir para a formulação de outras concepções de mundo mais-que-humanos, capazes de sustentar formas mais plurais, justas e habitáveis de existência. Ao valorizar saberes situados e práticas relacionais, essa abordagem busca não apenas descrever mundos, mas participar da sua transformação, afirmando a possibilidade de uma ecologia de conhecimentos fundada na diferença, na opacidade e na coexistencia.
Ponencia / Apresentação 1. Título: "Manejo vegetal e histórias de vida: tempos entrelaçados nas margens do rio Xingu"
AUTORÍA: Doutorando Dannyel Sá Pereira da Silva (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: «A gente veio do Pará», destacam os Yudja mais velhos que atualmente vivem ao norte do Território Indígena do Xingu. Antigos habitantes das ilhas do baixo e médio rio Xingu, os Yudja tiveram seu território invadido pelos karai a partir do século XVII. Após conflitos com seringueiros e outros povos indígenas, se dividiram em dois grupos. Um deles empreendeu uma longa migração subindo o curso do rio Xingu à remo até se estabelecer ao sul da Amazônia. Nas últimas três décadas, as monoculturas de capim, soja e milho que engendram mercadorias circuladas em escalas nacional e transcontinental dizimaram as florestas no Mato Grosso. Esse projeto de escalabilidade colocado em marcha pelo agronegócio global tem causado impactos como o aumento da temperatura regional, alteração no ciclo hidrológico e a incidência de incêndios florestais nunca antes registrados. Nesse contexto de afronta contínua aos seus mundos, apresentarei como o deslocamento articulado às atividades de coleta de espécies vegetais está meticulosamente implicado nas ações que produzem o mundo Yudja. Derrubar árvores de kadïka para produção de cauim conecta o gradiente floresta-roça-aldeia-casa. Cortar ramos de tĩtĩ e kῗ’ï para fazer flautas mobiliza intensas negociações entre humanos e os espíritos. Assim, pretendo investigar como percorrer o território está atrelado aos modos de se conhecer uma floresta cercada de latifúndios e vista do rio. Em diálogo com a Ecologia, buscarei possíveis conexões parciais entre esses conhecimentos distintos.
Ponencia / Apresentação 2. Título: "Cabruca, Clima e Resistência: A Teia dos Povos e o Reflorestamento da Mata Atlântica na Bahia"
AUTORÍA: Doutoranda Nahikari Santano Urkidi (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: A Teia dos Povos é uma articulação de movimentos sociais do campo, da floresta, das água2s e da cidade, formada por uma rede de alianças entre povos indígenas, quilombolas e assentados. Surgiu em 2012 no Assentamento Terra Vista, em Arataca (sul da Bahia), território reconhecido pela transição agroecológica iniciada há quase 20 anos, com destaque para o cultivo de cacau. O fruto é processado em uma fábrica própria no assentamento, onde é transformado em chocolate fino. Em meio à grave crise climática, a Teia dos Povos da Bahia está envolvida na criação de um projeto ambicioso: reflorestar 400 mil hectares de Mata Atlântica no litoral sul do estado. A iniciativa inclui recuperar 200 mil hectares de cacau cabruca e reflorestar outros 200 mil hectares com sistemas agroflorestais (SAFs). A Teia baseia-se em estudos — como o de Heming et al. (2022) — que demonstram como a cabruca reduz a vulnerabilidade da planta do cacau às mudanças climáticas. O projeto evidencia a capacidade do movimento de reconfigurar a paisagem da região. Com base em uma pesquisa-ação — metodologia na qual a antropóloga se insere no trabalho e nos objetivos do movimento —, esta apresentação busca analisar a construção dessas alianças e os diálogos que viabilizam o projeto. Além disso, explora os desafios, limitações e tensões entre os diversos atores envolvidos: governo estadual, o mercado económico mundial e a planta do cacau e seu fruto.
Ponencia / Apresentação 3. Título: "Desobediências Epistêmicas na Terra: inflexões ontológicas e a composição de mundos plurais em Tsing e de la Cadena"
AUTORÍA: Mestre Sandra Cilce de Aquino (Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP / Ministério Público Federal-MPF, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: O trabalho analisa as inflexões epistemológicas, éticas e políticas que emergem da articulação entre a virada ontológica, a antropologia da ciência e a crítica pós-colonial/decolonial na América Latina. A partir do diálogo cruzado entre as obras «Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno”, de Anna Lowenhaupt Tsing, e “Seres-terra: cosmopolíticas em mundos andinos”, de Marisol de la Cadena, busca-se investigar como as existências mais-que-humanas desafiam o projeto moderno-capitalista, o androcentrismo e o antropocentrismo. Através de conceitos como «arte da inclusão sem totalização», «não escalabilidade» e «contaminação» em Tsing, confrontados com as noções de «seres-terra», «tradução incompleta» e «co-laboração ontológica» em Cadena, o artigo propõe uma reflexão sobre as disputas territoriais e de realidade (conflitos ontológicos) enfrentadas pelas Antropologias do Sul. Argumenta-se que habitar a incerteza e acolher a opacidade teórica e etnográfica constituem gestos radicais de uma ética do cuidado e da interdependência, fundamentais para a composição de mundos plurais e politicamente insurgentes em tempos de colapso ecológico e social.
Ponencia / Apresentação 4. Título: "Ação de extensão. Desdomar desmontando o patriarcado a cavalo"
AUTORÍA: Dra. Marília Floôr Kosby (Universidade Federal do Pampa, Brasil), Dra.(c) Liamara Denise Ubessi (UFPel, Brasil), Caroline Soares (UFPel, Brasil), Cristiana Costa de Souza (Universidade Federal do Pampa, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: A ação de extensão Desdomar desmontando o patriarcado a cavalo compõe o projeto de extensão Desdomar: poéticas de liberdade com a manada equina da Unipampa. A iniciativa é uma parceria entre a Universidade Federal do Pampa – Campus Uruguaiana e a 2ª Vara Criminal de Uruguaiana, consistindo em atividade reflexiva e educativa voltada a homens em cumprimento de medida judicial decorrente de violência doméstica, nos termos da Lei Maria da Penha. Depois dos altos índices de feminicídios de 2015, o ano de 2024 ficou marcado pelos alarmantes índices de 1.450 (Relatório Raseam/Ministério das Mulheres) a 1.492 (Anuário de Segurança Pública) casos no Brasil. Desde então, as estatísticas brasileiras desse crime só aumentaram. O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com maior número de feminicídios de mulheres com medida protetiva de urgência, registrados em 2025. A ação tem base metodológica antropológica e fundamentação teórico-etnográfica, contando com equipe multiespécies interdisciplinar, composta por humanos/as e equinos/as. Emergentes do grave e urgente contexto de combate e prevenção à violência contra a mulher, além de situadas em uma sociedade com firmes bases agropastoris e patriarcais, as atividades vivenciadas na ação fomentam reflexões sobre masculinidades, tradição, autoridade, subjugação, vínculo afetivo e expressão emocional, favorecendo a revisão crítica e íntima de práticas que historicamente sustentam modelos misóginos. Especificamente, com relação aos excessos de uma masculinidade hegemônica, observamos comportamentos de controle, manipulação e busca por obediência. Nesse sentido, o eixo central das ações realizadas junto com a manada equina da Unipampa é um desacoplamento da montaria (desmontando, portanto) e das relações de “serventia” ou dominação (desdomando, portanto), dando abertura para um convívio em que os limites, intenções, desejos do/a outro/a e de si mesmo/a estão sendo constantemente aprendidos.
Ponencia / Apresentação 5. Título: "Percepções Kalapalo sobre as mudanças climáticas e seus efeitos sobre relações interespecíficas"
AUTORÍA: Mestranda Susi Leme de Moura (Universidade Estadual de Campinas-Unicamp, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Os Kalapalo, etnia pertencente a família linguística karib, do Território Indígena do Xingu – TIX, no estado do Mato Grosso – Brasil, possuem uma estreita relação com o ambiente em que vivem. O presente trabalho propõe apresentar a relação dos Kalapalo com os elementos outros-que-humanos, ditos: “recursos ambientais”, com especial interesse pela forma com que as mudanças climáticas podem estar interferindo nessas relações. A pesquisa apresentada adota uma perspectiva multiespecífica, interessada em descrever os modos pelos quais humanos e outros-que-humanos produzem relações em um contexto no qual o conjunto dos agentes é impacto por mudanças ambientais em curso. Concretamente, pretende-se: a) descrever as percepções dos Kalapalo sobre mudanças no clima, em especial os desajustes percebidos em relação a seus marcadores de tempo tradicionais; b) identificar e mapear elementos/espécies de interesse dos Kalapalo, investigando sua relativa abundância ou escassez e como ela é associada às mudanças ambientais; e c) investigar os impactos práticos das mudanças climáticas sobre suas relações com outros seres, considerando as formas de mitigação de impactos que os Kalapalo vêm buscando. Trazendo para o primeiro plano percepções e manejos locais, associadas a um complexo conhecimento ecológico tradicional, essa pesquisa pretende contribuir com os debates acerca de povos indígenas e as mudanças climáticas através de uma perspectiva transdisciplinar conectando as áreas de estudos da Antropologia e da Biologia.
Ponencia / Apresentação 6. Título: "Entre roçados e rios: uma etnografia do conhecimento ecológico tradicional de mulheres da Reserva Extrativista do Rio Iriri"
AUTORÍA: Mestranda Letícia de Godoy Torso (Universidade Estadual de Campinas, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: O estudo investiga o conhecimento ecológico tradicional de mulheres ribeirinhas residentes em comunidades da Reserva Extrativista do Rio Iriri, na região da Terra do Meio (PA), buscando compreender como saberes, práticas e formas de habitar o território são produzidos e transmitidos no contexto das atividades agrícolas, especialmente nos roçados.
Partindo de uma perspectiva antropológica interessada nas relações entre humanos e ambiente, a pesquisa examina os modos pelos quais o conhecimento sobre plantas cultivadas, ciclos ecológicos, manejo da paisagem e processos de transformação da floresta emerge da experiência cotidiana das mulheres e de suas interações com diferentes seres, ambientes e temporalidades. Os roçados são compreendidos não apenas como espaços produtivos, mas como contextos privilegiados de aprendizagem, circulação de conhecimentos, construção de vínculos de parentesco, cuidado e reprodução dos modos de vida locais.
A pesquisa adota metodologia etnográfica, combinando observação participante, entrevistas abertas e acompanhamento das atividades cotidianas das interlocutoras. Ao privilegiar as perspectivas das mulheres, busca contribuir para os debates antropológicos sobre conhecimento ecológico tradicional, gênero, territorialidade, sociobiodiversidade e relações multiespécies na Amazônia, evidenciando o papel central das práticas femininas na constituição e manutenção dos sistemas socioecológicos amazônicos.