Título: "Fricções ontológicas no Antropoceno: povos indígenas e alianças cosmopolíticas em defesa da vida"
Coordinación / Coordenação
Dr. Duvan Escobar (independente, Colômbia)
Dr. Florêncio Vaz (UFOPA, Brasil)
Moderación / Moderação
Mag. Verónica Azpiroz (UNLa, Argentina)
Resumen / Resumo
Este Grupo de Trabalho propõe debater as múltiplas formas pelas quais povos indígenas articulam seus processos identitários e lutas por território frente a ameaças extrativistas, projetos de infraestrutura e aos impactos das mudanças climáticas. Partindo do reconhecimento da pluralidade ontológica que constitui os mundos contemporâneos, o objetivo central é compreender como a defesa de lugares e fluxos vitais — como a água e a terra — e os movimentos de reorganização étnica e retomada não se restringem a disputas sociopolíticas clássicas. Ao contrário, tais mobilizações são profundamente pautadas por alianças cosmopolíticas com mais-que-humanos, revelando modos de existência que desafiam as dicotomias modernas. Nesse sentido, buscamos reunir trabalhos de diversas regiões que abordem: 1) os modos como conhecimentos ecológicos e práticas locais sustentam a defesa territorial e a vida em seus múltiplos emaranhados; 2) as fricções e conflitos ontológicos entre os projetos homogeneizantes de Estado/Capital e a pluralidade de mundos vividos e defendidos por essas comunidades; 3) metodologias de pesquisa colaborativa e de/pós/contra-colonial que recusam a lógica do distanciamento absoluto, priorizando a coautoria, a escuta ativa e o engajamento ético. Convidamos pesquisadoras e pesquisadores a compartilhar etnografias e reflexões teóricas que tensionem as fronteiras ocidentais entre cultura e natureza, visibilizando estratégias mais-que-humanas de re-existência.
Palavras-chave: pluralidade ontológica, antropoceno, cosmopolítica, reorganização étnica, pesquisa colaborativa.
Ponencia / Apresentação 1. Título: "Escolar Indígena na região Baixo Tapajós frente à lógica do Capital"
AUTORÍA: Mag. Luana Arapiun (UFOPA, Brasil)
RESUMEN: Historicamente imposta como instrumento de assimilação, a escola foi ressignificada pelos povos indígenas, tornando-se indissociável de suas organizações políticas e sociais. No Baixo Tapajós (PA), a Educação Escolar Indígena (EEI) atua como linha de frente dos quatorze povos da região no enfrentamento à lógica capitalista e à exploração territorial. Desse modo, este trabalho objetiva analisar os modos como a EEI se integra aos processos de resistência indígena, a partir de duas mobilizações recentes. O primeiro caso aborda a ocupação da Secretaria de Educação do Estado do Pará (Seduc), em Belém (janeiro de 2025), que reivindicou a revogação da Lei 10.820/2024 — norma que impunha a substituição de aulas presenciais por teleaulas, impactando drasticamente a carreira docente. O segundo caso centra-se na ocupação da multinacional Cargill, em Santarém, que culminou na revogação do Decreto 12.600/2025, o qual previa a concessão privada e a dragagem nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Ambas as ocupações duraram cerca de um mês e contaram com a participação efetiva de professores-lideranças, gestores e estudantes. O espaço dos protestos — a primeira ocupação focada na EEI e a segunda resultando na paralisação das escolas da região — converteu-se em arenas de debate e assembleias onde a educação figurou como pauta transversal. Conclui-se que a EEI não apenas reflete a luta histórica desses povos, mas atua como catalisadora da resistência, potencializando a tomada de consciência política, a desnaturalização das imposições e a defesa do território e dos modos de vida.
Palavras-chave: Educação Escolar Indígena, Baixo Tapajós, Movimento político.
Ponencia / Apresentação 2. Título: "'Janulari (tigre) ya cutipo al niño otra vez': sobre seres más-que-humanos y cuidados infantiles"
AUTORÍA: Mag. Juana Cabrera (UFSCar, Perú), Mag. Juan Quisto (UFSCar, Perú)
RESUMEN: En la vida cotidiana urarina, incluso en actividades consideradas prosaicas, se despliegan prácticas fundamentales para el cuidado y la reproducción de la vida. En el contexto de una fiesta con masato, por ejemplo, se puede ver cómo un hombre se aparta momentáneamente de una conversación animada para atender la solicitud de una madre afligida: toma un pequeño recipiente con leche materna y comienza a icararla. Tras susurrar palabras sobre la sustancia, cubriéndola con las manos para evitar que estas se dispersen, devuelve el contenido a la madre, quien lo ofrece al bebé. Este gesto puede repetirse varias veces, hasta contrarrestar posibles intromisiones de seres más-que-humanos (cutipos) en el desarrollo del cuerpo infantil. Proponemos analizar cómo, en el contexto del pueblo Urarina, los cuidados posteriores al parto constituyen un pilar central en la construcción del cuerpo, en un escenario marcado por la pluralidad médica y por profundas desatenciones estatales en materia de salud. Sostenemos que este proceso implica una relación constitutiva con los seres más-que-humanos que habitan el mundo, y que no puede comprenderse únicamente desde categorías biomédicas. Asimismo, argumentamos que el acceso a los limitados servicios de salud estatales no es percibido como contradictorio con estas prácticas, sino que forma parte de itinerarios terapéuticos complejos, en los que coexisten y se articulan distintos regímenes de conocimiento y cuidado. Este análisis se basa en más de una década de trabajo en la cuenca del río Chambira, incluyendo cuatro años y medio de permanencia en el medio Chambira en el marco de un puesto de salud gestionado por una ONG alemana y el Estado peruano, así como en numerosas conversaciones en las que articulamos experiencias, conocimientos y reflexiones situadas desde nuestras distintas trayectorias.
Palabras clave: Pueblo Urarina, Fabricación del Cuerpo, Prácticas de cuidado, Relaciones más-que-humanas.
Ponencia / Apresentação 3. Título: "'Entre o nhandereko e o jurua reko: conflitos ontológicos e defesa territorial Guarani no Sul do Brasil"
AUTORÍA: Dra.(c) Bárbara Elice da Silva de Jesus (Universidade Federal do Paraná, Paraná, Brasil)
RESUMEN: A expansão de grandes empreendimentos de infraestrutura no nordeste de Santa Catarina, no Sul do Brasil, tem intensificado as dinâmicas de encontro entre o nhandereko (modo guarani de viver) e o jurua reko (modo de viver do não indígena). Após tantos séculos de colonialismo, na atualidade a legislação garante a manutenção de espaços de diálogo e de autonomia indígena através de dispositivos como a Convenção 169 da OIT e os processos de licenciamento ambiental. Entretanto, a dinâmica das relações ainda opera na lógica não indígena, mesmo dentro das terras indígenas, ocasionando situações de incomensurabilidade. Nesse contexto, este trabalho movimenta-se na direção de analisar processos estatais e indígenas relacionados ao território como espaços de conflito, tradução e negociação entre mundos. Especialmente buscando reconhecer como as lideranças Guarani Mbya têm articulado seus conhecimentos, sua cosmologia e suas tecnologias políticas para defender o território e produzir caminhos de confluência diante das pressões impostas por grandes empreendimentos.
A observação participante em reuniões de consulta, oficinas de etnomapeamento, práticas de fotografia, produção documental e cerimônias nas opy está articulada à reflexão conjunta com lideranças indígenas, priorizando metodologias colaborativas comprometidas com a escuta, a devolutiva dos resultados e o respeito aos protocolos definidos pelas próprias comunidades.
Pretende-se fazer perguntas ontológicas às problemáticas relacionadas ao conflito territorial, considerando as rodovias, os mapas, documentos, protocolos de consulta e demais materialidades não apenas como instrumentos técnicos, mas como elementos que participam das fricções entre mundos. Por fim, argumenta-se que os conflitos territoriais ultrapassam disputas fundiárias ou ambientais, revelando tensões entre projetos homogeneizantes de Estado e Capital e a pluralidade de formas de vida interdependentes defendidas pelos Guarani Mbya. Nesse contexto, a etnografia torna-se um exercício de tradução cosmopolítica comprometido com a produção compartilhada de conhecimento e com o reconhecimento da existência de múltiplos mundos.
Ponencia / Apresentação 4. Título: "'A mulher que cuida, também resiste e tem convicção. A resistência de uma mulher sacaca do baixo Tapajós"
AUTORÍA: Mestrando Paulo Victor Miranda Ferreira (PPGAA, UFOPA, Santarém, Brasil), Dra. Lucybeth Camargo de Arruda (PPGAA, UFOPA, Santarém, Brasil)
RESUMEN: A colonização evangelizadora, em muitos contextos indígenas, resultou na marginalização das práticas espirituais, como a pajelança. Desde o século XVII, missionários frequentemente associavam essas práticas a manifestações demoníacas, levando à repressão e ao abandono de rituais tradicionais. Indígenas que mantinham suas crenças foram e continuam sendo estigmatizados e isolados dentro de seus próprios territórios por religiões de matriz ocidental. Desde o início do século XX, a presença de igrejas evangélicas em comunidades indígenas, também vem sendo uma constante que foi ganhando força nos últimos tempos e realiza um papel de apagamento das práticas espirituais tradicionais. Trago para uma reflexão sobre essas vivências e práticas espirituais indígenas, a história de vida de dona Noca, uma mulher indígena, ribeirinha que vai morar com sua família para o planalto Santareno, pois como também viviam da agricultura, a terra era boa para cultivo. Dona Noca após trabalhar quase 50 anos em sua Tenda da Cabocla Herondina, se converte para a igreja evangélica, tendo sua tenda devastada e destruída por conta da nova religião e tendo que mudar sua forma de cultuar e vivenciar sua própria espiritualidade. Em uma conversa, dona Noca me diz da insistência da filha em convertê-la para a Assembleia de Deus. “Ela está metendo na minha cabeça isso, e está assim indeciso, eu não sei, Deus é quem sabe né? Mas por enquanto se chegar uma pessoa para mim consertar, para mim puxar a barriga, pra mim fazer um banho eu faço, faço mesmo (Dona Noca, 2018).” A reflexão vai se orientar na concepção de uma ética do cuidado, nos termos de Bellacasa (2023), através de uma política de compromisso e de obrigação ética com uma ontologia de mundos mais que humanos e, nos termos de Sueli Carneiro (2020, 115) que redireciona a obrigação patriarcal em sentimento de compaixão, que permite cuidar do mundo, reeducá-lo sem dor e sem opressão.