GT virtual 7 Memória, imagem e o Antropoceno

Título: "Memória, imagem e o Antropoceno: tecnologias, ausências e mundos em ruínas"

Coordinación / Coordenação

Mestrando Daniel Ercílio Néres (Universidade Feevale – Novo Hamburgo/Brasil)

Dra. Wanda Balbé (Universidad de Buenos Aires, Argentina)

Moderación / Moderação

Doutorando Daniel Gevehr Keller (Universidad Jorge Tadeo Lozzano|Universidade Feevale , Brasil)

Resumen / Resumo

O Grupo de Trabalho “Memória, imagem e o Antropoceno: tecnologias, ausências e mundos em ruínas” propõe uma reflexão sobre as articulações entre memória, tecnologias, imagens e fenômenos naturais em contextos de transformações socioambientais. Em um cenário atravessado por crises climáticas, urgências de deslocamentos e reconfigurações do mundo vivido, interessa-nos compreender como diferentes formas de mediação, e em especial as visuais, participam da construção, da preservação e também da transformação das memórias. Ao considerar as tecnologias não apenas como ferramentas, mas como dispositivos que organizam modos de ver, registrar e compartilhar experiências, o GT busca investigar como imagens, mídias e práticas sensíveis operam como formas de saber e relação com o mundo. Fotografias, filmes, arquivos, práticas performativas e registros audiovisuais são entendidos para além do  suporte de memória, mas, também, como modos de produção de presença, que são atravessados por enquadramentos culturais, afetivos e políticos. Acontecimentos, como os recorrentes desastres naturais, afetam diretamente este campo de relações, uma vez que da mesma forma que colocam em risco a existência humana, também ameaçam os dispositivos de preservação, como as fotografias, arquivos e registros. Na falta destes, o que resta são as ausências, tensionando modos de lembrar e narrar experiências. No entanto,  essas rupturas mobilizam práticas de reconstrução e mediação, nas quais tecnologias, design e ações coletivas passam a atuar na reconfiguração de acervos, na produção de novos registros e na elaboração de respostas sensíveis frente à perda. Nesse processo, a memória não se limita à conservação do que permanece, mas se constitui também nas tentativas de recomposição, reinvenção e cuidado com aquilo que foi interrompido. Assim, o GT propõe pensar o Antropoceno como um contexto no qual natureza, técnologia e vida se entrelaçam de maneira inseparável. Neste pensamento, as memórias  vão além do caráter  humano e a natureza passa a ser reconhecida como agente ativo na produção e transformação de mundos, especialmente em situações de ruína, continuidade e reinvenção. A partir de uma abordagem interdisciplinar, o Grupo de Trabalho convida pesquisadoras e pesquisadores a compartilhar trabalhos que explorem as múltiplas relações entre memória, imagem, tecnologia e ausência, considerando tanto processos de preservação quanto experiências de perda, deslocamento e reconstrução da memória em contextos contemporâneos.

Ponencia / Apresentação 1. Título: "Álbuns de família: memória e ausência em contextos de perda"

AUTORÍA: Mestrando Daniel Ercílio Néres (Universidade Feevale – Novo Hamburgo/Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O trabalho investiga como a memória se reorganiza diante da perda de fotografias em contextos de desastre socioambiental, tomando como referência as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e a consequente destruição de álbuns de família e arquivos afetivos. Ao compreender a fotografia como suporte sensível de experiências e narrativas, a pesquisa propõe deslocar a ausência do campo da falta para o de produção, entendendo-a como um espaço ativo no qual a memória continua a operar. Nesse cenário, a perda das fotografias não representa apenas o desaparecimento de registros, mas uma ruptura nos modos de lembrar, narrar e reconhecer o vivido. A ausência tensiona as formas tradicionais de ancoragem da memória e coloca em evidência outras possibilidades de elaboração, nas quais aquilo que não pode mais ser visto passa a ser sustentado pela oralidade e por práticas cotidianas de rememoração. A pesquisa se insere no campo da antropologia visual e adota uma abordagem etnográfica, baseada na escuta de narrativas e na observação situada, com atenção às dimensões sensoriais e corporais da experiência. Parte-se do entendimento de que a memória não se limita a seus suportes materiais, mas se constitui em relações, práticas e disputas que atravessam o cotidiano. Os resultados indicam que, diante da destruição dos arquivos, a memória se desloca para outros regimes de presença, como a oralidade, os gestos, os afetos e o corpo. Observa-se que a ausência não produz um vazio, mas reorganiza as formas de lembrar, evidenciando a capacidade de reinvenção da memória. Conclui-se que a destruição das imagens, embora produza ruptura, também ativa processos de reconstrução simbólica, nos quais novas formas de continuidade emergem em meio às ruínas.

Ponencia / Apresentação 2. Título: "Poéticas ruderais nas ruínas da indústria calçadista"

AUTORÍA: Doutorando Daniel Gevehr Keller (Universidad Jorge Tadeo Lozzano|Universidade Feevale , Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O trabalho investiga como a Euphorbia thymifolia, conhecida como quebra-pedra, atua como agente de recomposição ecológica, poética e epistemológica nas ruínas do antigo polo calçadista de Novo Hamburgo (RS), com foco no bairro histórico de Hamburgo Velho. Partindo da crítica à monocultura do design, a pesquisa compreende a ruína como campo de ressurgência, onde vidas humanas e não humanas reorganizam a habitabilidade da paisagem. Nesse contexto, a fissura torna-se chave analítica para observar a ruderalidade, entendida tanto em seu sentido botânico (capacidade de certas plantas habitarem ambientes perturbados) quanto como noção ampliada de emergência em cenários de colapso. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa e interpretativa, ancorada na etnografia multiespécie, em caminhadas, registros fotográficos e observação situada, tomando a planta como coautora metodológica. Em diálogo com Anna Tsing, Tim Ingold, Stefano Mancuso e Alfredo Gutiérrez Borrero, o texto propõe pensar a quebra-pedra como mediadora de práticas equialtervalentes ao design, deslocando-o de sua vocação moderna, centralizadora e controladora para uma prática relacional, responsiva e situada. Ao emergir entre frestas, muros e escombros, a planta denuncia o esgotamento da racionalidade industrial e, ao mesmo tempo, indica outras possibilidades de coexistência. Conclui-se que a ruderalidade da E. thymifolia oferece uma crítica ontológica ao design moderno e sugere uma reorientação baseada em correspondência multiespécie e atenção ao que brota nas ruínas.