Título: "Antropologia dos Objetos de Arte"
Coordinación / Coordenação
Dra. Maria Cristina Simões Viviani (Universidade Federal do Pará, Brasil)
Dra. Luisa Elvira Belaunde (Universidad Nacional Mayor de San Marcos. Perú)
Moderación / Moderação
Mestrado Emerson Silva Caldas (Universidade Federal do Pará, Brasil)
Resumen / Resumo
A proposta do GT Antropologia dos Objetos de Arte parte do entendimento de que os objetos são constitutivos da vida social e participam ativamente da produção de relações. As obras de arte não devem ser compreendidas apenas como representações, mas como agentes que articulam vínculos entre pessoas, instituições e contextos. A partir da perspectiva da Cultura Material, o grupo propõe analisar como os objetos constroem redes dinâmicas de relações, circulam e atuam na produção de sentidos no campo das artes visuais e na sociedade.
A arte, dessa maneira, é entendida menos como um sistema de representação e mais como um campo de ação, no qual os objetos produzem efeitos concretos no mundo social. Ao mesmo tempo, as obras não são entidades fixas ou encerradas em si mesmas, mas atravessadas por múltiplas narrativas. Elas constroem e são construídas por seu entorno, estabelecendo relações de constituição mútua entre artistas, obras e públicos.
Assim, o GT propõe deslocar o foco das interpretações centradas exclusivamente nos sujeitos para incluir a materialidade dos objetos e suas trajetórias. As obras de arte são compreendidas como elementos dinâmicos, cujos sentidos e valores se transformam conforme os contextos em que estão inseridas. Não possuem significados fixos ou intrínsecos, sendo continuamente agenciadas a partir das relações que estabelecem ao longo de sua circulação. Nesse sentido, os objetos de arte não ocupam posição passiva, mas atuam como mediadores nas relações sociais: influenciam práticas, constroem narrativas e participam da formação de identidades individuais e coletivas.
Neste GT, serão aceitos trabalhos que abordem objetos de arte de diferentes momentos históricos, incluindo contemporâneos, bem como distintos modos e dinâmicas de circulação. Isso permite analisar as obras em suas múltiplas funções e contextos históricos, culturais e sociais, considerando suas transformações ao longo do tempo. O GT abrange pesquisas que tratem de diversas mídias artísticas, como pintura, escultura, fotografia, vídeo e instalação, entre outras.
Em suma, a proposta do GT se baseia principalmente nas contribuições de autoras e autores que destacam os objetos de arte como agentes ativos, capazes de mediar relações sociais, constituir identidades e operar em redes complexas. A abordagem valoriza a análise da materialidade, da circulação e da agência dos objetos, permitindo compreender de forma ampliada os sistemas de poder no campo das artes visuais. Ao privilegiar a ação dos objetos e suas relações, o GT enfatiza que as obras de arte não apenas acompanham a sociedade, mas também a transformam, evidenciando como circulam, conectam e constroem sentidos ao longo do tempo.
Ponencia / Apresentação 1. Título: "Câmera na mão... Arqueologia de Ficção: quando as produções cinematográficas queimam o filme da ciência arqueológica"
AUTORÍA: Dra. Débora Cristiane Blois Nascimento (Universidade Federal do Pará, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Esta pesquisa propõe uma análise acerca da imagem da arqueologia e dos museus no cinema, seus fazeres e constructo enquanto ciência das humanidades. Meu objetivo é apresentar as facetas sob as quais a arqueologia e os museus são representados nas telas do cinema, de Indiana Jones a Lara Croft, quais papéis são apresentados e qual legado essas representações perpetuam a seus profissionais e ao público. Esta pesquisa problematiza a imagem fílmica dos museus e da arqueologia por meio dos discursos embasados na “Repetição por alegoria”, atentando para as especificidades e ao mesmo tempo estabelecendo relações e conexões entre as obras audiovisuais destacadas. Para revelar silêncios e invisibilidades em filmes, séries e documentários usarei “a agência do não dito” conceito que desenvolvi para fomentar discussões em torno das relações de poder socioculturais. Esta reflexão parte da seleção cinematográfica disponível nas dez plataformas de streaming mais acessadas da atualidade como: Netflix, Amazon Prime Vídeo, YouTube, Max, Globoplay, Stremio, Apple TV+, Star+, Disney+ e Looke. Veremos o quanto a Sétima Arte contribui para estabelecer lugares de poder, racismo estrutural, invisibilidade de gênero, colonialismo e apagamento do protagonismo das mulheres na construção do saber arqueológico.
Ponencia / Apresentação 2. Título: "Tradições míticas amazônicas e ecofeminismo queer/cuir: um estudo de caso de 'uiaras defendendo o paraíso'"
AUTORÍA: Dra.(c) Paola Haber Maués (Universidade Federal do Pará, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Este resumo é parte da investigação de doutoramento, orientada pelo Prof. Dr. Orlando Maneschy, no Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade Federal do Pará (PPGArtes/UFPA) que está em andamento. O objetivo da tese é desenvolver o conceito de Encantarias Queer/Cuir Amazônicas, por meio da análise das tradições míticas e identidades e sexualidades queer/cuir presentes na obra “Uiaras defendendo o paraíso»» (2019), de Rafael Matheus Moreira, pertencente ao acervo da Coleção Amazoniana de Arte da UFPA.
O design metodológico desta investigação se caracteriza por um estudo de caso da obra supracitada, utilizando o ecofeminismo queer/cuir como metodologia de análise. A tese apresentada nesta pesquisa defende que mulheres e identidades e sexualidades queer/cuir na arte contemporânea da Amazônia brasileira se apropriam da mitopoética da região para subverter o pensamento colonial sobre os conceitos de corpo e natureza, suscitando o que chamo de Encantarias Queer/Cuir Amazônicas.
A partir da interpretação da obra ‘Uiaras defendendo o Paraíso’ da artista Rafael Matheus Moreira, concluo que os corpos representados subvertem as imagens de mulheres cristalizadas desde o período colonial, e que estas representações podem nos orientar para discussões interseccionais entre identidades e sexualidades, questões ecológicas e decoloniais. Pela presença de Uiara, lenda amazônica que também engloba referências afro ameríndias e europeias, trago a reflexão sobre a transculturação como ato de resistência, pela ressignificação das encantarias amazônicas na arte contemporânea para um discurso ecofeminista queer/cuir, uma abordagem ecológica-decolonial interseccional.
Ponencia / Apresentação 3. Título: "El viaje de Henry de la Vaulx a la Patagonia (1896-1897) y el itinerario de unas joyas mapuche"
AUTORÍA: Dr. Hernan Horacio Schiaffini (Universidad Nacional de la Patagonia. CONICET, Esquel, Chubut, Argentina)
RESUMEN / RESUMO: Recuperamos el viaje del explorador francés Henry de la Vaulx a la Patagonia entre 1896-1897 para plantear una discusión en el campo de la antropología de los objetos de arte.
En su exploración de la Vaulx acumuló fotografías, un importante número de utensilios propios de las culturas originarias de la zona (mas de 1.300 artefactos), los restos óseos de una decena de personas y más de cien cráneos humanos.
Acá nos interesan 130 piezas de joyería mapuche que se encuentran actualmente en el Musée du Quai Branly y que de la Vaulx obtuvo, si le creemos a su crónica, mediante el trueque con esposas y familiares femeninas del lonko Sayhueque.
Estas piezas atravesaron no sólo una transformación cuanto a sus estatus como objetos -de bienes preciosos a mercancía, de mercancía a bienes patrimoniales de museo- sino que también expresan y nos permiten analizar críticamente las continuidades y rupturas entre los polos del comercio y el pillaje colonial, así como el ejercicio del poder que define los entramados en interacción.
Ponencia / Apresentação 4. Título: "Efigies que devienen personas: ontogénesis relacional de las imágenes entre los nahuas de la Sierra Norte de Puebla"
AUTORÍA: Dra. Gabriela Milanezi (Instituto de Investigaciones Estéticas, UNAM, Ciudad de México, México)
RESUMEN / RESUMO: Esta ponencia examina cómo las efigies de los santos patronos llegan a constituirse como personas entre los nahuas de la Sierra Norte de Puebla (México). A partir de una investigación etnográfica realizada en la comunidad de San Miguel Tzinacapan, municipio de Cuetzalan del Progreso, se analizan las prácticas sociales y rituales mediante las cuales una nueva efigie de San Miguel Arcángel, elaborada en 2023 para sustituir la imagen patronal deteriorada por siglos de uso ritual, adquiere personitud. Para entender ese proceso, la ponencia retoma la noción nahua de persona a partir del ciclo vital humano. Para éste y otros pueblos mesoamericanos, el nacimiento biológico no basta para producir un ser humano pleno, quien se conforma gradualmente mediante la recepción de dones, la incorporación a redes de parentesco ritual y la participación en relaciones de reciprocidad. El caso de la nueva efigie de San Miguel muestra que las personas-imágenes se constituyen de manera análoga a los seres humanos, a través de procesos similares a aquellos mediante los cuales los recién nacidos devienen personas. Así, la vida y la agencia de las imágenes no son atributos inherentes a su materialidad ni efectos de la inserción de entidades anímicas preexistentes, sino cualidades emergentes de las relaciones en las que participan. La ponencia propone así desplazar la atención desde la representación de los objetos artísticos hacia los procesos de constitución relacional, mostrando que las imágenes no sólo median relaciones, sino que ellas mismas intervienen activamente en las dinámicas sociales y rituales que producen y sostienen la vida comunitaria. De este modo, desde la perspectiva nahua, el arte aparece menos como un sistema de representación que como un campo relacional en el que las imágenes son personas que, a su vez, participan en la conformación de la personitud de quienes conviven con ellas.
Ponencia / Apresentação 5. Título: "I want you: um estudo sobre o poder das imagens, quando elas desejam o mundo"
AUTORÍA: Dr. Daniel Pícaro Carlos (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Datado de 1917, o conhecido cartaz assinado por James Montgomery Flagg mostra um homem de cartola. Abraçando sua chaminé, uma faixa azul exibe recortes em forma de estrela, que dela sobressaem, brancas. Logo abaixo, um cenho se franze. Sob o semblante preocupado, severo, uma barbicha surge, ruça, e se alonga até o baricentro de um meio-corpo. Desalinhadamente vestido por uma camisa branca, um largo paletó azul e uma gravata borboleta vermelha, é este tronco o que dá guarida ao braço que se suspende pelo efeito do escorço. Em sua extremidade, o rijo dedo insiste em inquirir seus eventuais observadores. Na base do cartaz, uma frase consuma e requinta a prescrição que já se expressa através da figura. Escrito com letras garrafais, o ditame cumpre a função de alicerce. A normativa é transmitida de forma direta, objetiva, imperativamente. A voz é ativa; é a primeira pessoa quem fala: “I want you”.
Utilizada nas campanhas de aliciamento de voluntários para os fronts estadunidenses na Primeira Guerra Mundial, a figura histórica e iconicamente reconhecida como Tio Sam será o objeto da investigação deste ensaio.
Como o cartaz atuava? Seria possível compreender o encanto que ele inspirava, da aura que dele efluía? Decodificar seu modus operandi, os mecanismos de seu funcionamento?
Abordagens contemporâneas não raramente ancoram suas reflexões sobre o mundo das imagens numa perspectiva psicanalítica, valendo-se de conceitos como “desejo” e “falta”. São os casos paradigmáticos de W. J. T. Mitchell e Georges Didi-Huberman.
Em diálogo com essas aproximações, propõe-se aqui diligências metodológicas distintas. Afim de pensar o modo como a imagem afeta seu observador, como mobiliza afetos que lhe escapam à razão, a exposição que daqui decorre buscará seus referenciais em noções como “feitiço”, “magia” e “bruxaria”, tais como trabalhadas por Marcel Mauss, Edward Evans-Pritchard, Claude Lévi-Strauss, Bruno Latour e Jeanne Favret-Saada.
Ponencia / Apresentação 6. Título: "Empreendedorismo, colapso e morte, possibilidades críticas a partir de Érica Storer e Nuno Ramos"
AUTORÍA: Dr. Raul da Fonseca Silva Thé (Universidade Federal do Ceará UFRRJ, Amazonas, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Entre a performance e a instalação, Érica Storer e Nuno Ramos concebem a arte como uma linguagem aberta a múltiplos sentidos, significados e possibilidades. No entrecruzamento dessas dimensões, produzem-se e reconstroem-se, de forma dinâmica, redes de relações que configuram um escopo crítico voltado tanto à biografia dos objetos e de suas trajetórias quanto ao debate sociopolítico estabelecido com outras linguagens que se espraia pela sociedade contemporânea. Suas obras tensionam as fronteiras entre matéria, memória, política e experiência, promovendo deslocamentos de sentido que desafiam leituras unívocas e evidenciam a complexidade das relações sociais. Partindo de uma perspectiva metodológica que compreende os processos sociais como processos de ressonância de ideias, articulando o nível macroestrutural às experiências do self, esta investigação propõe analisar a produção desses dois artistas. Busca-se compreender de que maneira suas obras entrelaçam múltiplas narrativas e constroem uma crítica ao sistema de sentidos dominante na contemporaneidade, representado, entre outras formas, pela linguagem do empreendedorismo. Entendido, também, como um modelo e um regime de produção de subjetividades, o empreendedorismo constitui uma linguagem carregada de narrativas, biografias e interesses que orientam modos de vida, formas de sociabilidade e critérios de reconhecimento social. Ao exporem, performance/intalação, de forma pragmática, constituem e oferecem aos públicos arenas de debates acerca das contradições estruturais do capitalismo contemporâneo. Nesse sentido, tanto Storer quanto Ramos investigam as formas pelas quais o capitalismo — em suas diferentes configurações e denominações — opera em permanente convivência com o colapso e a morte, a ruína e a precariedade. Ao mobilizarem esses elementos em suas produções, os artistas desestabilizam discursos hegemônicos de progresso, sucesso e eficiência, evidenciando as tensões que sustentam a linguagem neoliberal do empreendedorismo. Assim, os artistas oferecem vias críticas para repensar as práticas, as experiências e a produção de sentido tanto no campo das artes visuais quanto na sociedade.