GT virtual 9 (Re)fazendo religiosidades dentro e fora da diáspora

Título: "(Re)fazendo religiosidades dentro e fora da diáspora: escritas de si e enfrentamentos na contemporaneidade"

Horario

Grupo de Trabajo 9 virtual:

Día: Jueves-Quinta-feira 05/11/2026. Hora: 15:30-19:00 hrs. (Sur Brasil)

Coordinación / Coordenação

Dr. Claudenilson da Silva Dias (Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, Brasil)

Dra. Florita Cuhanga António Telo (FTC Gênero e Diversidade Consultoria, Angola)

Moderación / Moderação

Dr. Lucas Gomes de Medeiros (Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, Brasil)

Resumen / Resumo

Esse grupo de trabalho visa ampliar discussões sobre as múltiplas vivências religiosas e suas implicações na vida cotidiana. A partir de uma perspectiva feminista, racializada e queer buscaremos (re)pensar a religiosidade como um lócus de reprodução de opressões, numa sociedade ancorada em recrudescimentos e fundamentalismos religiosos. Desse modo, o GT acolherá trabalhos que versem sobre as religiões de matriz africana e outras expressões religiosas que considerem um projeto de emancipação social através das religiões. Acolheremos ainda abordagens desde dentro dos espaços religiosos com o intuito de respeitar as escritas de si dos povos tradicionais de terreiro e de outras expressões religiosas. Interessa-nos trabalhos que dialoguem com as diversas matrizes religiosas pensando a relação desse conceito com as perspectivas ligadas a raça, sexualidade, geração, territorialidades, dentre outros marcadores das diferenças. Entendemos a importância que a ideia de religiosidade adquiriu no percurso da história e (re)pensar tal conceito interseccionado a outros marcadores sociais da diferença, torna-se fundamental para identificar as potencialidades/riscos ligados à produção de discursos e contra discursos religiosos. O entendimento das ideias transatlânticas sobre a religiosidade também é de interesse desse GT uma vez que a experiência afro diaspórica é profundamente marcada pelo câmbio de memórias de resistência que sobreviveram à travessia forçada do oceano.

Ponencia / Apresentação 1. Título: "Lideranças afrorreligiosas e o enfrentamento à Colonialidade do Saber: uma breve análise sobre novas mentalidades no Candomblé Contracolonial"

AUTORÍA: Dr. Claudenilson da Silva Dias (Universidade Estadual de Feira de Santana, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: O texto apresenta a forma como lideranças do Candomblé promovem uma nova perspectiva de mentalidade no que se refere aos processos de ensino-aprendizagem comuns nas Comunidades Tradicionais de Terreiros. Esse é um aspecto primaz para o desenvolvimento de uma prática que contrarie a colonialidade do saber, ainda difundida nos espaços de matriz africana, muito embora a nossa relação com a troca de saberes se paute em princípios africanos. Como ponto de contato as pessoas apresentadas promovem um debate sobre as vivências LGBTQIAPN+, de modo a potencializar as nossas corporeidades diante de práticas excludentes das minorias sexuais e de gênero.

Ponencia / Apresentação 2. Título: "Religiosidades de Angola ao Brasil: aspectos e similaridades nas expressões de religiosidade em Salvador e Luanda"

AUTORÍA: Dra. Florita Telo (FTC Gênero e Diversidade Consultoria, Angola)

RESUMEN / RESUMO: O pensamento africano com relação as expressões de religiosidade não seguem uma lógica de universalidade partindo do pressuposto que os entendimentos no campo da religião são díspares e não coadunam com a práticas religiosas no ocidente. Muito embora existam várias similaridades entre as práticas no Continente e no Brasil, no que se refere às questões litúrgicas, as práticas culinárias, ao nosso modo de evocação do sagrado, a relação com os mais velhos, dentre tantas outras, também nos diferenciamos em inúmeros aspectos. Desse modo, intentarei comparar as realidades da Província de Luanda, em Angola, e a cidade baiana de Salvador no Brasil, cidades coirmãs pelas perspectivas culturais, alimentares e do âmbito da religiosidade afrodiaspórica. Posso pensar, a partir do filósofo camaronês Achille Mbembe (2001) que essa pseudounicidade do pensamento africano assim como com a ideia de um Candomblé “puro” e universalizado é no mínimo “falha” uma vez que essa noção de pensamento único geraria uma essência a ser contraposta pela noção de que a identidade religiosa angolana de per se não pode ser tomada “por uma única palavra” em sua expressão religiosa bem como o Candomblé não tem uma única matriz, assim o fosse, as casas matriciais teriam cultos idênticos e isso não acontece, cada uma “mexe sua panela” de acordo com suas convicções e crenças individualizadas.

Ponencia / Apresentação 3. Título: "Pessoas transgênero e o sagrado: reflexões a partir da Quimbanda no Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai"

AUTORÍA: Dr. Daniel Francisco de Bem (Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Este trabalho analisa a participação e o lugar de pessoas trans nas religiões de matriz africana, com foco na Quimbanda na região fronteiriça entre o Rio Grande do Sul, a Argentina e o Uruguai. Defende-se a hipótese de uma continuidade estrutural (consciente ou não) que reserva às dissidências de gênero um papel de mediação sagrada, cruzando a etnografia contemporânea com a longa duração histórica. Sociedades tradicionais historicamente estruturaram espaços rituais para identidades trans e não-binárias, como as hijras na Índia e os two-spirits na América do Norte. No contexto colonial português do século XVI, relatos de jesuítas em Angola e de processos inquisitoriais no Brasil (como o de Xica Manicongo) revelam que os quimbandas e chibados na Angola colonial exerciam funções religiosas indissociáveis de suas performances de gênero. Para compreender a reatualização desse fenômeno no Cone Sul, incorporam-se dados etnográficos de várias pesquisas que descrevem a importante presença de pessoas queer desde os inícios da transnacionalização afrorreligiosa a partir dos anos de 1960 rumo ao Uruguai e à Argentina. Contemporaneamente, como aponta Rita Segato, essa expansão constrói redes alternativas de filiação espiritual que desafiam as narrativas (nacionais, raciais, da cisgeneridade e da heterossexualidade) hegemônicas no Rio da Prata. Assim, nesse conjunto religioso, principalmente a prática da Quimbanda opera como esse lugar de acolhimento e reinvenção existencial para a população trans local. Contudo, existem ambiguidades dentro do campo afrorreligioso transnacional e tensionam-se as contradições internas dos terreiros, como o preconceito de pares e as disputas na adequação dos assentamentos rituais às identidades de gênero das filhas de santo. Conclui-se que, apesar do conservadorismo residual, a rede transnacional da Quimbanda preserva a potência cosmológica e política dos corpos dissidentes, reapresentando na diáspora, e na contemporaneidade, saberes tradicionais para além da lógica heteronormativa.