Título: "(Áudio)Visuais, Oralidades e Performances: memórias, trajetórias e resistências no Sul Global"
Coordinación / Coordenação
Doutoranda Luz Mariana Blet (Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC, Brasil)
Mestrando Romulo Beck (Instituto de Desarrollo Económico y Social-IDES y Escuela Interdisciplinaria de Altos Estudios Sociales-EIDAES, Universidad Nacional de San Martín/UNSAM, Argentina)
Moderación / Moderação
Mag. Sérgio de Almeida Pereira Machado (UFSC, Brasil)
Resumen / Resumo
Este Grupo de Trabalho propõe reunir reflexões e experimentações que tomam práticas (áudio)visuais, sonoras, performáticas e narrativas como formas centrais de produção de conhecimento nas Antropologias do Sul. Partimos do entendimento de que imagens, sons, corpos e oralidades não apenas representam o mundo social, mas constituem modos de conhecer, intervir e disputar sentidos em contextos marcados por desigualdades históricas e conflitos contemporâneos.
Em diálogo com os desafios epistemológicos, éticos e sociopolíticos das Antropologias do Sul, o GT busca problematizar como essas práticas tensionam paradigmas hegemônicos de produção de conhecimento, frequentemente ancorados em matrizes do Norte Global. Interessa-nos refletir em que medida abordagens (áudio)visuais e performáticas podem contribuir para deslocar regimes de representação, ampliar formas de escuta e visibilidade e afirmar perspectivas situadas, comprometidas com contextos específicos e com as lutas de diferentes coletividades.
No eixo sociocultural, propomos pensar como tais práticas se articulam às memórias coletivas, às trajetórias individuais e às dinâmicas de resistência, especialmente em cenários de intensificação de violências, apagamentos e disputas por narrativas. Como imagens, sons e performances participam da preservação e reconstrução de memórias? De que maneiras contribuem para processos de emancipação do conhecimento? E como podem atuar na defesa da autonomia e da autodeterminação de povos e comunidades?
O GT também se abre a discussões sobre os desafios éticos implicados na produção (áudio)visual e performática, especialmente no que se refere a práticas colaborativas, coautorias, circulação de imagens e sons, e às responsabilidades do/a pesquisador/a em contextos de pesquisa compartilhada. Nesse sentido, buscamos contribuições que reflitam sobre o lugar do/a antropólogo/a enquanto interlocutor/a, participante e, muitas vezes, co-implicado/a nos processos sociais e políticos que atravessam o campo.
Serão acolhidos trabalhos que dialoguem com a antropologia visual, a etnografia sonora, a antropologia da performance e áreas afins, incluindo tanto análises de produções quanto reflexões sobre processos de criação no campo, experimentações metodológicas e os efeitos dessas práticas no fazer antropológico. Também são bem-vindas propostas em formatos audiovisuais ou híbridos, em consonância com a ampliação dos modos de produção e circulação do conhecimento.
Ao propor este espaço, buscamos fortalecer o intercâmbio de experiências e perspectivas que contribuam para uma antropologia situada, interseccional e comprometida com as urgências do Sul Global, valorizando múltiplas linguagens, sensibilidades e formas de existência.
Este GT dá continuidade e consolida discussões iniciadas em edições anteriores das Jornadas Antropológicas do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, ampliando seu escopo para o diálogo com redes mais amplas das Antropologias do Sul.
Ponencia / Apresentação 1. Título: "Narrar o território em coletivo: etnografia multimodal, audiovisual comunitário e documentário social participativo em Moravia (Medellín)"
AUTORÍA: doutoranda Luz Mariana Blet (UFSC, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Este trabalho apresenta uma etnografia multimodal desenvolvida a partir do acompanhamento do coletivo colombiano Tricilab, no território de Moravia, em Medellín, durante a realização do Laboratorio de Comunicación Viva Comunitaria, voltado a jovens entre 14 e 28 anos. O laboratório se constituiu como um espaço de formação, escuta e criação coletiva, orientado pela proposta de “contar e narrar as histórias que habitam o território”, com foco no fortalecimento do tecido social e comunitário em um contexto urbano marcado por desigualdades históricas, disputas territoriais e estigmatização.
A pesquisa foi realizada por mim, em 2024, mulher latina, periférica, integrante de coletivos de audiovisual no Brasil e mãe, que esteve em campo acompanhada de seu filho, incorporando a maternidade como dimensão metodológica e relacional da experiência etnográfica. Munida de uma câmera, participei ativamente das atividades do laboratório, contribuindo em diferentes etapas do processo, assim como na construção de um Documentário Social Participativo (DSP), desenvolvido coletivamente pelos jovens participantes. Neste processo, produzi registros audiovisuais, uma espécie de making of etnográfico, que serve tanto à minha pesquisa quanto à memória do trabalho do coletivo, evidenciando os processos, negociações, afetos, dilemas éticos e escolhas estéticas envolvidos na construção do DSP.
A etnografia articula escrita, imagem, som e coletividade, tomando o audiovisual não como ilustração, mas como linguagem de produção de conhecimento antropológico. As cenas do cotidiano da atuação do Tricilab, as ações no laboratório, as exibições de filmes, as rodas de conversa, as caminhadas pelo território e os debates sobre o que é — ou pode ser — um documentário revelam disputas de sentidos sobre realidade, verdade, ficção e representação, bem como diferentes formas de pertencimento e relação com o território de Moravia. Nesse processo, emergem questões centrais sobre ética, autoria compartilhada, cuidado, memória e responsabilidade na produção de imagens.
Ao dialogar com a antropologia multimodal e com metodologias participativas, o trabalho propõe um deslocamento da colonialidade da escrita e da figura do antropólogo onisciente e da produção de conhecimento elitizada, masculina e eurocentrada. Apostando em uma produção de conhecimento situada, sensível e compartilhada, que reconhece a parcialidade, a relação e a experiência como constitutivas do fazer antropológico. Ao mesmo tempo, evidencia como práticas audiovisuais comunitárias atuam como estratégias de fortalecimento de vínculos, elaboração de experiências urbanas e produção de paisagens narrativas, contribuindo para reflexões sobre território, coletivos urbanos e resistência simbólica em contextos latino-americanos.
Ponencia / Apresentação 2. Título: "Cartografias sonoras afropindorâmicas, familiares e diaspóricas"
AUTORÍA: Aruanã Amaral (Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas-PPGICH, Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Este trabalho propõe uma escuta sensível das musicalidades afro-indígenas como formas de elaboração da memória, do território e da identidade. A partir de cantos, rezas, benzimentos e experimentações sonoras — orgânicas e eletrônicas —, investiga-se como essas expressões constituem arquivos vivos de histórias muitas vezes silenciadas por processos coloniais, missionários e de expropriação territorial.
As sonoridades aqui mobilizadas emergem de experiências familiares e territoriais situadas entre diferentes regiões do Brasil, atravessando contextos marcados por deslocamentos forçados, catequização e apagamentos culturais. Ainda assim, persistem nos corpos, nas práticas cotidianas e nos modos de cuidado, como no preparo de chás, nas rezas e nas performances rituais, revelando estratégias de continuidade, proteção e reinvenção identitária. Nesse sentido, questiona-se também como a incorporação de elementos cristãos pode operar simultaneamente como imposição histórica e tática de resguardo de saberes.
Inspirado por perspectivas que compreendem a musicalidade como inseparável das histórias, memórias e territórios que a produzem, o trabalho articula paisagens sonoras que conectam campo, floresta e águas, evocando presenças afro-indígenas em diferentes localidades. Essas sonoridades são entendidas como práticas que fortalecem vínculos coletivos e sustentam cosmologias, contribuindo para a continuidade de modos de existência ameaçados.
A proposta se materializa em uma instalação sonora imersiva, concebida como espaço de escuta, afetação e partilha. Organizada em ambiente de baixa luminosidade e com disposição circular ou semicircular de caixas de som, a instalação busca envolver o público em uma experiência sensorial que convide à reflexão sobre memória, território e pertencimento. Após a escuta, propõe-se um momento de diálogo coletivo, ampliando as possibilidades de elaboração das experiências vividas.
Por fim, o trabalho também se insere no campo de uma etnomusicologia aplicada, comprometida com o cuidado das musicalidades dos territórios e com a reflexão crítica sobre as ameaças contemporâneas, como a morosidade na titulação de terras quilombolas, indígenas e de outras comunidades tradicionais, que impactam diretamente a continuidade dessas expressões sonoras.
Ponencia / Apresentação 3. Título: "Ensamblajes semióticos multimodales en el nicho Yabarana: experiencias de trabajo colaborativo para una Educación Propia en el contexto urbano"
AUTORÍA: M.Sc. Jeyni González Tabarez (Laboratorio de Etnohistoria y Oralidad, Centro de Antropología, Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas – IVIC, Venezuela), representantes del Nicho Etnolingüístico Yabarana “Clemente López” (Venezuela)
RESUMEN / RESUMO: Esta ponencia sistematiza una experiencia pedagógica de revitalización biocultural, fundamentada en el diálogo de saberes y aplicada mediante una metodología colaborativa y autoetnográfica. El proceso se desarrolló durante los últimos tres años (2023-2026) junto al pueblo Yabarana en el nicho etnolingüístico “Clemente López”, en el contexto urbano de Puerto Ayacucho, Amazonas, Venezuela. Presentada en coautoría entre la investigadora y representantes del nicho, la propuesta desplaza el enfoque puramente teórico para centrarse en una praxis compartida en donde confluyen conocimientos tradicionales y conocimientos lingüísticos, antropológicos, pedagógicos y artísticos. El eje central ha sido la co-creación de materiales didácticos concebidos como ensamblajes semióticos multimodales que actúan como dispositivos de mediación, memoria y resistencia.
Desde la semiótica multimodal, el esta ponencia examina la correlación dinámica y la transducción semiótica situada entre representaciones visuales (etnocartografías, árboles genealógicos, travesías de movilidad, calendarios socioproductivos, líneas de tiempo comunitarias,), registros sonoros y componentes audiovisuales. En este entramado, los elementos iconográficos y las oralidades operan como nodos deícticos —espaciales y temporales— que reconfiguran las dinámicas del territorio ancestral dentro del entorno urbano. Esto permite que la memoria colectiva se active como un archivo vivo, móvil y transferible intergeneracionalmente.
La interdependencia de estos recursos propicia un escenario pedagógico donde el conocimiento indígena y las herramientas técnicas dialogan horizontalmente. Al priorizar el relato de la experiencia metodológica y el protagonismo de los yabarana en el diseño de sus propios materiales, esta presentación expone cómo la producción colectiva fortalece la autonomía cultural. De este modo, la práctica se consolida como un ejercicio de Educación Propia en contextos migratorios, demostrando la viabilidad de sostener procesos autogestionados de resguardo biocultural en las urbes del Sur.
Ponencia / Apresentação 4. Título: "Entre Vozes, Memórias e Experimentação Sonora: notas sobre a criação de Vestígios"
AUTORÍA: Dra. Mariana Mostranges (Programa de Pós-graduação em Antropologia Social – PPGAS, UFSC, Santa Catarina, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Este trabalho apresenta uma experimentação sonora construída a partir de mensagens de voz trocadas entre familiares. Tomando a voz digital como vestígio sensível de presença, a proposta parte da montagem de um arquivo sonoro composto por mensagens enviadas por uma prima falecida, outros familiares e pela própria autora. A composição articula lembranças cotidianas, conversas interrompidas, relatos sobre sofrimento e reações familiares à morte, reunindo vozes gravadas em diferentes momentos da vida. O trabalho busca refletir sobre o que emerge quando essas vozes são novamente escutadas, editadas e colocadas em relação por meio da montagem sonora, explorando as tensões entre memória, silêncio, ausência e permanência.
A composição foi realizada a partir da seleção, edição e reorganização de áudios autorizados de familiares, articulados a beats e ambiências produzidos experimentalmente pela autora com o auxílio do aplicativo BandLab. A possibilidade de compor, editar, sobrepor camadas sonoras e experimentar diferentes arranjos diretamente em uma plataforma digital permitiu explorar diferentes formas de organizar vozes, silêncios e ambiências, transformando a montagem em um exercício contínuo de escuta e experimentação. Nesse sentido, a criação sonora é mobilizada não apenas como produto expressivo, mas também como procedimento metodológico.
Além de discutir o processo de produção da montagem, o trabalho analisa as reações de familiares que escutaram a composição final, apresentada na Mostra Sonora do III Encontro Regional Sul da ABET, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina. Interessa compreender de que modo a reescuta dessas vozes mobiliza recordações, afetos e interpretações sobre a permanência dos vínculos. Ao deslocar o foco da representação para a experiência da escuta, busca-se contribuir para os debates sobre práticas sonoras, memória e produção de conhecimento nas antropologias do som.
Ponencia / Apresentação 5. Título: "As canções no ensino e na aprendizagem de português como língua de acolhimento a partir de uma perspectiva decolonial"
AUTORÍA: Dr. Paulo Fachin (Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC, Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG, Cascavel, Paraná, Brasil), Dra.(c) Adriana da Silva Boeira (Centro Universitário Assis Gurgacz – FAG, Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, Brasil)
RESUMEN / RESUMO: Olhar para o processo de ensino e de aprendizagem de português como língua de acolhimento é questão urgente e necessária em nossa contemporaneidade, pois, cada vez mais, o Brasil recebe cidadãos de diversas nacionalidades que decidem se mudar para o nosso país por questões sociais, políticas, econômicas entre muitas outras. Partindo deste entendimento, o trabalho proposto tem, como objetivo principal, refletir sobre o ensino de língua portuguesa para imigrantes por meio de canções considerando a perspectiva decolonial. Tematizar os estudos decoloniais é investigar sobre um movimento social, humanístico, político e cultural que busca transgredir as heranças de dominação, exploração e subalternidade deixadas pelo colonialismo. A escolha pelo gênero canção como encaminhamento pedagógico se justifica pelo seu potencial de romper com o modelo tradicional de ensino de línguas, que, historicamente, prioriza a gramática normativa e textos literários canônicos. Sob o viés decolonial, as canções atuam como possibilidades de resistência e de legitimação de saberes marginalizados, permitindo introduzir, em sala de aula, a pluralidade de vozes e linguística, tais como sotaques, regionalismos e realidades sociais que compõem o Brasil do século XXI. Durante a produção deste trabalho, buscaremos responder à seguinte pergunta norteadora para a pesquisa: como o trabalho com canções para o ensino de língua portuguesa como língua de acolhimento pode atuar na desconstrução da colonialidade do ser, do poder e do saber, permitindo que o estudante imigrante e/ou em situação de refúgio se perceba como um sujeito efetivamente acolhido e com possibilidades no novo país? Para o desenvolvimento deste trabalho de cunho bibliográfico, qualitativo e exploratório serão utilizados artigos científicos, dissertações, teses e materiais de pesquisadores da área.