GT virtual 21 (Áudio)Visuais, Oralidades e Performances

Título: "(Áudio)Visuais, Oralidades e Performances: memórias, trajetórias e resistências no Sul Global"

Coordinación / Coordenação

Doutoranda Luz Mariana Blet (Universidade Federal de Santa Catarina/UFSC, Brasil)

Mestrando Romulo Beck (Instituto de Desarrollo Económico y Social-IDES y Escuela Interdisciplinaria de Altos Estudios Sociales-EIDAES, Universidad Nacional de San Martín/UNSAM, Argentina)

Moderación / Moderação

Mag. Sérgio de Almeida Pereira Machado (UFSC, Brasil)

Resumen / Resumo

Este Grupo de Trabalho propõe reunir reflexões e experimentações que tomam práticas (áudio)visuais, sonoras, performáticas e narrativas como formas centrais de produção de conhecimento nas Antropologias do Sul. Partimos do entendimento de que imagens, sons, corpos e oralidades não apenas representam o mundo social, mas constituem modos de conhecer, intervir e disputar sentidos em contextos marcados por desigualdades históricas e conflitos contemporâneos.

Em diálogo com os desafios epistemológicos, éticos e sociopolíticos das Antropologias do Sul, o GT busca problematizar como essas práticas tensionam paradigmas hegemônicos de produção de conhecimento, frequentemente ancorados em matrizes do Norte Global. Interessa-nos refletir em que medida abordagens (áudio)visuais e performáticas podem contribuir para deslocar regimes de representação, ampliar formas de escuta e visibilidade e afirmar perspectivas situadas, comprometidas com contextos específicos e com as lutas de diferentes coletividades.

No eixo sociocultural, propomos pensar como tais práticas se articulam às memórias coletivas, às trajetórias individuais e às dinâmicas de resistência, especialmente em cenários de intensificação de violências, apagamentos e disputas por narrativas. Como imagens, sons e performances participam da preservação e reconstrução de memórias? De que maneiras contribuem para processos de emancipação do conhecimento? E como podem atuar na defesa da autonomia e da autodeterminação de povos e comunidades?

O GT também se abre a discussões sobre os desafios éticos implicados na produção (áudio)visual e performática, especialmente no que se refere a práticas colaborativas, coautorias, circulação de imagens e sons, e às responsabilidades do/a pesquisador/a em contextos de pesquisa compartilhada. Nesse sentido, buscamos contribuições que reflitam sobre o lugar do/a antropólogo/a enquanto interlocutor/a, participante e, muitas vezes, co-implicado/a nos processos sociais e políticos que atravessam o campo.

Serão acolhidos trabalhos que dialoguem com a antropologia visual, a etnografia sonora, a antropologia da performance e áreas afins, incluindo tanto análises de produções quanto reflexões sobre processos de criação no campo, experimentações metodológicas e os efeitos dessas práticas no fazer antropológico. Também são bem-vindas propostas em formatos audiovisuais ou híbridos, em consonância com a ampliação dos modos de produção e circulação do conhecimento.

Ao propor este espaço, buscamos fortalecer o intercâmbio de experiências e perspectivas que contribuam para uma antropologia situada, interseccional e comprometida com as urgências do Sul Global, valorizando múltiplas linguagens, sensibilidades e formas de existência.

Este GT dá continuidade e consolida discussões iniciadas em edições anteriores das Jornadas Antropológicas do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, ampliando seu escopo para o diálogo com redes mais amplas das Antropologias do Sul.

Ponencia / Apresentação 1. Título: "Narrar o território em coletivo: etnografia multimodal, audiovisual comunitário e documentário social participativo em Moravia (Medellín)"

AUTORÍA: doutoranda Luz Mariana Blet (UFSC, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Este trabalho apresenta uma etnografia multimodal desenvolvida a partir do acompanhamento do coletivo colombiano Tricilab, no território de Moravia, em Medellín, durante a realização do Laboratorio de Comunicación Viva Comunitaria, voltado a jovens entre 14 e 28 anos. O laboratório se constituiu como um espaço de formação, escuta e criação coletiva, orientado pela proposta de “contar e narrar as histórias que habitam o território”, com foco no fortalecimento do tecido social e comunitário em um contexto urbano marcado por desigualdades históricas, disputas territoriais e estigmatização.

A pesquisa foi realizada por mim, em 2024, mulher latina, periférica, integrante de coletivos de audiovisual no Brasil e mãe, que esteve em campo acompanhada de seu filho, incorporando a maternidade como dimensão metodológica e relacional da experiência etnográfica. Munida de uma câmera, participei ativamente das atividades do laboratório, contribuindo em diferentes etapas do processo, assim como na construção de um Documentário Social Participativo (DSP), desenvolvido coletivamente pelos jovens participantes. Neste processo, produzi registros audiovisuais, uma espécie de making of etnográfico, que serve tanto à minha pesquisa quanto à memória do trabalho do coletivo, evidenciando os processos, negociações, afetos, dilemas éticos e escolhas estéticas envolvidos na construção do DSP.

A etnografia articula escrita, imagem, som e coletividade, tomando o audiovisual não como ilustração, mas como linguagem de produção de conhecimento antropológico. As cenas do cotidiano da atuação do Tricilab, as ações no laboratório, as exibições de filmes, as rodas de conversa, as caminhadas pelo território e os debates sobre o que é — ou pode ser — um documentário revelam disputas de sentidos sobre realidade, verdade, ficção e representação, bem como diferentes formas de pertencimento e relação com o território de Moravia. Nesse processo, emergem questões centrais sobre ética, autoria compartilhada, cuidado, memória e responsabilidade na produção de imagens.

Ao dialogar com a antropologia multimodal e com metodologias participativas, o trabalho propõe um deslocamento da colonialidade da escrita e da figura do antropólogo onisciente e da produção de conhecimento elitizada, masculina e eurocentrada. Apostando em uma produção de conhecimento situada, sensível e compartilhada, que reconhece a parcialidade, a relação e a experiência como constitutivas do fazer antropológico. Ao mesmo tempo, evidencia como práticas audiovisuais comunitárias atuam como estratégias de fortalecimento de vínculos, elaboração de experiências urbanas e produção de paisagens narrativas, contribuindo para reflexões sobre território, coletivos urbanos e resistência simbólica em contextos latino-americanos.

Ponencia / Apresentação 2. Título: "Cartografias sonoras afropindorâmicas, familiares e diaspóricas"

AUTORÍA: Aruanã Amaral (Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas-PPGICH, Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Este trabalho propõe uma escuta sensível das musicalidades afro-indígenas como formas de elaboração da memória, do território e da identidade. A partir de cantos, rezas, benzimentos e experimentações sonoras — orgânicas e eletrônicas —, investiga-se como essas expressões constituem arquivos vivos de histórias muitas vezes silenciadas por processos coloniais, missionários e de expropriação territorial.

As sonoridades aqui mobilizadas emergem de experiências familiares e territoriais situadas entre diferentes regiões do Brasil, atravessando contextos marcados por deslocamentos forçados, catequização e apagamentos culturais. Ainda assim, persistem nos corpos, nas práticas cotidianas e nos modos de cuidado, como no preparo de chás, nas rezas e nas performances rituais, revelando estratégias de continuidade, proteção e reinvenção identitária. Nesse sentido, questiona-se também como a incorporação de elementos cristãos pode operar simultaneamente como imposição histórica e tática de resguardo de saberes.

Inspirado por perspectivas que compreendem a musicalidade como inseparável das histórias, memórias e territórios que a produzem, o trabalho articula paisagens sonoras que conectam campo, floresta e águas, evocando presenças afro-indígenas em diferentes localidades. Essas sonoridades são entendidas como práticas que fortalecem vínculos coletivos e sustentam cosmologias, contribuindo para a continuidade de modos de existência ameaçados.

A proposta se materializa em uma instalação sonora imersiva, concebida como espaço de escuta, afetação e partilha. Organizada em ambiente de baixa luminosidade e com disposição circular ou semicircular de caixas de som, a instalação busca envolver o público em uma experiência sensorial que convide à reflexão sobre memória, território e pertencimento. Após a escuta, propõe-se um momento de diálogo coletivo, ampliando as possibilidades de elaboração das experiências vividas.

Por fim, o trabalho também se insere no campo de uma etnomusicologia aplicada, comprometida com o cuidado das musicalidades dos territórios e com a reflexão crítica sobre as ameaças contemporâneas, como a morosidade na titulação de terras quilombolas, indígenas e de outras comunidades tradicionais, que impactam diretamente a continuidade dessas expressões sonoras.