GT presencial 8 Estéticas do Fim do Mundo

Título: "Estéticas do Fim do Mundo: arte, fabulações e narrativas no Antropoceno como dispositivo de pesquisa nas Antropologias do Sul"

Coordinación / Coordenação

Doutoranda Priscila Silva Queiroz Cevada (Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana-LabNAU, Universidade de São Paulo-USP, Brasil)

Tiana Zampedri (Facultad de Filosofía y Letras, Universidad de Buenos Aires, Argentina)

Moderación / Moderação

Mestrando Fabio Luiz Silva de Oliveira  (Laboratório de Imagem e Som em Antropologia-LISA, Universidade de São Paulo-USP, Brasil)

Resumen / Resumo

Diante da emergência climática e da crise civilizatória que caracteriza o Antropoceno, as Antropologias do Sul enfrentam o desafio de produzir conhecimentos que ultrapassem a dicotomia moderna entre Natureza e Cultura. Questionar como as práticas artí no sticas podem atuar como dispositivos de visibilidade para as redes sociotécnicas e os conflitos ecológicos que a linguagem científica convencional muitas vezes negligencia se faz mais que necessário, pois se o Antropoceno é um evento que “desorienta” a bússola moderna, a antropologia precisa de novas ferramentas para “construir novas rotas”. Para além do campo artístico em sentido estrito, torna-se igualmente fundamental considerar como diferentes regimes narrativos — científicos, técnicos, jurídicos, midiáticos, cotidianos e até especulativos — participam da construção de inteligibilidades sobre o Antropoceno, disputando sentidos, escalas e responsabilidades. Nesse horizonte ampliado, a arte se entrelaça com outras formas de produção de conhecimento e sensibilidade, compondo ecologias narrativas que não apenas representam, mas performam mundos possíveis. Ao articular práticas discursivas diversas, abre-se espaço para pensar o Antropoceno como um campo de enunciações múltiplas, no qual saberes situados, experiências vividas e infraestruturas materiais se cruzam, tensionando fronteiras disciplinares e expandindo as possibilidades de imaginação política e ontológica diante das crises contemporâneas. Assim, este Grupo de Trabalho propõe discutir a arte não apenas como objeto de estudo, mas como uma forma de narrativa, pesquisa e método epistemológico capaz de pensar as transformações planetárias a partir de coordenadas geopolíticas e ontológicas sul-sul. Desse modo, propomos investigar como práticas fabulativo-narrativas e artístico-etnográficas podem captar as polifonias das paisagens de antropoceno conectadas pelas coligações entre humanos e não-humanos que emergem nas brechas do capitalismo extrativista.

O GT acolhe comunicações que explorem:

  • Etnografias que utilizam suportes artísticos (vídeo, som, performance, instalação) para documentar impactos ambientais no Sul Global.

  • Discussões teóricas sobre o papel das narrativas e da sensibilidade estética na reconfiguração da ética e política antropológica.

  • Projetos de colaboração entre antropólogos, artistas e comunidades tradicionais em contextos de devastação ecológica.

  • Buscamos, em suma, responder aos desafios éticos e políticos do Congresso: como as Antropologias do Sul podem gerar mapas cognitivos próprios que não sejam apenas reflexos de modelos canônicos, mas sim intervenções estético-políticas na composição de um mundo comum e habitável.

Ponencia / Apresentação 1. Título: "A sociedade do antropoceno é uma distopia Cyberpunk?"

AUTORÍA: Mestrando Maycon Souza de Oliveira (Departamento de Antropologia, Universidade de São Paulo, Brasil)

RESUMEN / RESUMO: Este artigo investiga as interseções entre o gênero cyberpunk e o Antropoceno, analisando como representações sociais, ambientais e tecnológicas presentes em obras literárias e audiovisuais do cyberpunk refletem e dialogam com as dinâmicas da realidade contemporânea. O estudo parte da compreensão de que o Antropoceno marca a era em que a ação humana transforma ecossistemas em escala planetária, enquanto o cyberpunk, surgido como crítica ao capitalismo tardio, antecipa dilemas como degradação ambiental e desigualdade social. A pesquisa adota abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, comparando representações do gênero com dados de cidades como São Paulo, Tóquio, Hong Kong e Los Angeles. Ao relacionar ficção científica e antropologia, busca-se compreender como narrativas distópicas oferecem instrumentos simbólicos para refletir sobre crises urbanas, tecnológicas e ecológicas, ampliando o debate interdisciplinar sobre o futuro da humanidade.

Ponencia / Apresentação 2. Título: "Sonhar Mundos no Antropoceno"

AUTORÍA: Mestranda Anna Heloisa Segatta (Departamento de Antropologia, Universidade de São Paulo, Brasil) 

RESUMEN / RESUMO: Este trabalho é uma reflexão sobre a condição humana no contexto de crise ambiental, considerando arte, sonho, e ontologias indígenas e ocidentais. Partindo de uma tela do artista indígena contemporâneo Jaider Esbell, proponho uma abordagem ensaística-antropológica que desloca a estética no sentido de mobilizar a arte como uma forma de conhecimento capaz de mediar mundos. Meu argumento é que articular noções de arte, xamanismo, sonho e cosmologia indígena permite tensionar pressupostos ontológicos ocidentais e sugerir maneiras de viver no Antropoceno. A reflexão é construída no diálogo entre etnografia Yanomami sobre os sonhos (Bruce Albert, Davi Kopenawa; Hanna Limulja), a mitologia Makuxi sobre Makunaimã (reelaborada por Jaider Esbell), o debate diante da intrusão de Gaia (Bruno Latour, Isabelle Stengers) e como conviver com essa realidade (Donna Haraway). Em interlocução com a literatura especulativa de Ursula Le Guin, proponho que o sonho e arte são ferramentas de elaboração de mundos que permitem imaginar outras formas de existência no Antropoceno.